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A Introvertida

Introvertida. Intuitiva. Sentimental. Perceptiva.

12
Jul20

Deixem quem sabe falar

e neste caso, também escrever

Andam por aí, especialmente nestes últimos meses, muitos artigos online sobre psicologia e psiquiatria mas sinto que, muito raramente, se fala no que se deve. São artigos de pessoas que descrevem a sua experiência. Já conhecemos os sintomas de ansiedades e depressões, já sabemos que não é motivo para vergonha e que devemos procurar ajuda assim que possível e sabemos como lidar com assunto. Mas... continua a faltar um je ne sais quoi.

Uma delas é precisamento isto. Algo que quem não sente não compreende totalmente e a razão da capa da Vogue ter sido tão contestada.

Outra, tem a ver com isto.  Um presente de mim para quem se dá ao trabalho de ler as coisas poucachinhas que para aqui debito. Já seguia o Alain de Botton há uns anos e mais tarde descobri a School of Life, fundada por ele e mais uns quantos. Revejo-me imenso na forma deste senhor filosofar, no negativismo realismo do seu humor atrás do qual se esconde um homem ansioso, inseguro, humano. Esta palestra é das melhores que já vi dele e a sério, do fundo do meu ser, aconselho que vejam ou, pelo menos, ouçam. Fi-lo esta tarde e o meu humor disparou. Sinto-me um bocadinho mais cheia de vida desde o final de Junho.

07
Jul20

Há dias assim

Há dias normais, há dias maus e há dias muito, mas mesmo muito maus. E agora, enquanto ainda trepo as paredes do poço em que caí, arfando por ar fresco (uma correntezinha de ar seria suficiente, na verdade), estou incapaz de não me preocupar com todas as futuras crises que, como esta, vêm e arrasam como uma guerra.

Parece que cada quebra, cada viagem súbita às profundezas da depressão é pior que a anterior mesmo quando acho que já senti dores que nunca pensei voltar a sentir. Elas voltam mais fortes e enfraquecem-me a mim.

Por algum motivo vejo estas minhas crises como a expressão do desespero de algo com o qual não tenho lidado que é, na realidade, só toda a minha vida!

Basta um segundo e o estímulo mais banal para começarem a cair as lágrimas e a vontade de sorrir desaparece. Por muito que tente, os cantos da boca teimam em não reagir. O telemóvel fica de lado com mensagens e chamadas por atender. Mas ninguém insiste. Ninguém sabe onde estou nem como estou nem do que mais preciso. E a dor persiste. O sono, esse, ora desaparece, ora pesa em demasia, mas o tempo deitada na cama nunca aborrece. A auto-estima é aniquilada e deixo de existir.

Sou um conjunto de causas infelizes. Sou um efeito difícil de emendar. Há dores tão fortes que são impossíveis de explicar. Estão fora da escala. Agonias tão profundas que apertam o peito e colhem o fôlego.

Não sei explicar a ninguém como é que passo de um humor normal para um estado tão sinistro em apenas milissegundos. Costumam ser ocasiões em que me sinto posta de parte, momentos de isolamento e quando sinto um ínfimo indício de humilhação.

É nestes momentos que sei que o apreço por mim própria não existe. Repetem-se, continuamente, na minha cabeça, as vezes que falhei no passado. Essas vezes que, por sua vez, me arrancaram mais a vitalidade e a motivação e a direção.

O que mais me frustra na depressão é que não há uma solução milagrosa. Posso pegar num telefone e desabafar? Posso! Posso falar com a minha psicóloga? Posso! Mas não altera nada. Não previne as crises futuras nem avisa de antemão o grau de intensidade e dor que se vai sentir.

A solidão impõe-se quando me apercebo que por muito que partilhe, por muita terapia e desabafos que faça, sou EU que vou ter de viver assim para o resto da vida. Ninguém tem o poder de ajudar e eu não tenho as forças necessárias para o fazer sozinha.

poço.jpg

poço (?!) pintado por mim

03
Jul20

Porque estar doente é supé glamouroso

Ao que parece a revista Vogue Portugal está sob os radares por causa da sua última capa. Que, aliás, são 4, alusivas à saúde mental. Não leio nem vou ler mas sei que esta edição fornece artigos sobre a história de instituições e como o assunto tem vindo a ser tratado, e entrevistas com especialistas no assunto. 

Considero-me uma pessoa com muito bom humor, acho que devemos gozar com TUDO. A capa não me ofende, de todo (sendo eu uma pessoa que vive com depressão), mas é exatamente este tipo de representação antiquada que previne uma melhor compreensão das doenças do foro psicológico.

Pior. Impede aqueles que sofrem em silêncio de procurar ajuda por medo de chacota. Os mais jovens já se sentem mais à vontade e falam sobre o assunto. Contudo, os mais velhos (não tão velhos assim) têm mais dificuldade em abrir-se. Pessoas com 30 anos ou mais ainda estiveram expostos a esta representação da saúde mental através dos media (manicómios e asilos, lobotomias, terapia de choque, amarras).

Somos o país da Europa com mais casos de depressão. Todas as doenças que se inserem neste espectro vão muito além da doença física e os media entram num campo perigosíssimo quando se romantizam estas doenças e o próprio suicídio.

Porque uma imagem vale mais que mil palavras e nem toda a gente paga 10€ para ler a Vogue.

Gosto de achar que não me insiro nesta geração de gente que se ofende com tudo (e repito, não me sinto ofendida com a capa), mas a imagem aliada ao tema estão, na minha opinião, um pouco desencontrados.

25
Jun20

O Passarinho Azul

Curiosamente, pássaro azul é um prenúncio de felicidade e harmonia.

Prefiro falar do meu passarinho azul do que do meu cão negro.

 

there's a bluebird in my heart that

wants to get out

but I'm too tough for him,

I say, stay in there, I'm not going

to let anybody see

you.

there's a bluebird in my heart that

wants to get out

but I pour whiskey on him and inhale

cigarette smoke

and the whores and the bartenders

and the grocery clerks

never know that

he's in

there.

there's a bluebird in my heart that

wants to get out

but I'm too tough for him,

I say,

stay down, do you want to mess

me up?

you want to screw up the

works?

you want to blow my book sales in

Europe?

there's a bluebird in my heart that

wants to get out

but I'm too clever, I only let him out

at night sometimes

when everybody's asleep.

I say, I know that you're there,

so don't be

sad.

then I put him back,

but he's singing a little

in there, I haven't quite let him

die

and we sleep together like

that

with our

secret pact

and it's nice enough to

make a man

weep, but I don't

weep, do

you?

22
Jun20

...

sim... mais um post sobre depressão

A depressão é uma doença e qualquer pessoa pode senti-la se não trabalhar e desenvolver uma boa forma de saber lidar com as emoções.

Creio que a maior parte das depressões sentidas nos dias de hoje são ocasionadas por uma perda (às vezes nunca ganha) de identidade.

Não é só tristeza e não é algo que qualquer pessoa possa e consiga compreender. E por vezes é esta a razão porque não nos abrimos e desabafamos com as pessoas que, sabemos, estarão sempre ao nosso lado e mais nos querem ver felizes. Por vezes os piores comentários (embora de forma não intencional) são tecidos por estas mesmas pessoas que, uma tentativa de bem fazer, desconsideram sentimentos já sombrios e turvam ainda mais os pensamentos de quem sofre num silêncio tumultuoso.

Por esta razão, o acompanhamento psicológico é tão importante. Nem sempre os amigos nem a família podem ajudar. Nem sempre sabem o que dizer quando o fazem nem sempre nos faz sentir melhor.

Há uns três anos estava eu numa das minhas piores crises quando o meu rendimento no trabalho sofreu. Durante uma avaliação com a minha superior contei-lhe que estava a passar por uma fase menos boa e tinha sido diagnosticada há 3 anos com uma depressão. À pergunta dela, respondi que não tomava medicamentos porque não surtiam qualquer efeito no meu caso e tinha simplesmente deixado de os tomar. A resposta dela ainda hoje me atormenta, infelizmente. É algo que a minha memória ainda vai buscar quando a nuvem chega. Disse-me que sabia o que era depressão porque tinha amigos que tomavam medicação e um ex-namorado se tinha suicidado pelo que, se eu não tomava medicação não poderia ser assim tão grave. Não me passou na avaliação e, na próxima vincou ainda mais a sua opinião reiterando que eu não a convencia e que, ademais, era uma influência negativa para toda a equipa. Escusado será dizer que não sequer valia a pena continuar ali e apresentei, pouco depois, a minha carta de demissão. Por muito que conte esta história, este é um capítulo mal encerrado.

As doenças de foro psicológico são cada vez mais comuns mas interessa compreender o porquê. Quebrar as correntes. Abrir-nos e partilhar-mos as nossas vulnerabilidades para que percebamos que nenhum sentimento nos é exclusivo. Todos temos dúvidas sobre o caminhho que estamos a fazer e nem sempre o que sentimos no interior se reflecte no exterior.

Depressão mata e basta um segundo da nossa vida na mais obscura solidão. 

16
Jun20

Fórum Online Saúde Mental

Como já devo ter mencionado por aqui, cresci sem amigos e, por essa razão, nunca tive em quem confidenciar as minhas tormentas enquanto adolescente e jovem adulta. Habituei-me ao vazio de não ter ninguém a quem recorrer a qualquer hora do dia quando quisesse desabafar.

Eu sou uma pensadora compulsiva. Sempre fui. Mas as minhas inquitações não são mundanas nem algo que qualquer pessoa esteja disposta a escutar. Nunca tive namorados para trocar notas com as amigas nem nunca fui de sair à noite para gabar as bebedeiras. A maior questão com a qual sempre me debati tem a ver com a razão da minha existência e não conseguir compreender o que ando aqui a fazer.

Quando a minha depressão começou a notar-se senti uma solidão e vazio profundos. Refugiar-me em mim isolou-me ainda mais e agravou a minha saúde. Os 5 anos que estive fora de Portugal foram um verdadeiro inferno. Queria que fosse um recomeçar da minha vida mas teve o efeito oposto.

Fiz parte de dois grupos presenciais de terapia e ajudou-me imenso, principalmente por saber que havia mais gente como eu, com os mesmos tormentos ainda que por razões totalmente diferentes. Eram grupos ligados ao sistema nacional de saúde onde dois mediadores nos ensinavam a aplicar técnicas de terapia cognitivo-comportamental. Havendo uma lista de espera enorme para estes grupos, cada um funciona por um máximo de 10 a 12 semanas com auto avaliações semanais. Dependendo da gravidade revelada por essa avaliação (partindo do princípio que respondemos com verdade) podemos ter um acompanhamento pós grupo. Eu fazia parte deste tipo de pessoa mas, tão tipicamente da depressão, ignorava todos os contactos feitos pelos mediadores.

De qualquer forma, tentei procurar grupos de ajuda mais informal e focados numa partilha de experiências com pessoas que se entendem e não julgam, tanto on como offline. É, obviamente, mais fácil encontrar fóruns online onde as pessoas se sentem à vontade para desabafar de forma anónima mas não encontrei essa opção em Portugal.

Tendo em conta os números preocupantes sobre a saúde mental em Portugal, tomei a liberdade de criar este fórum. É bastante simples, diria até que ainda está numa fase de testes para ver como funciona. Sei que não temos uma sociedade que aceita, não quer e não sabe falar destes assuntos abertamente, continuo a achar que é importante haver uma comunidade de partilha e desabafos. Sei, por experiência, que ajuda imenso saber que não estamos sós.

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