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A Introvertida

Introvertida. Intuitiva. Sentimental. Perceptiva.

27
Jan21

esquilo siberiano

O primeiro animal de estimação que tive foi um esquilo siberiano. Não sei de onde veio a ideia mas o meu irmão pegou em mim um dia e fomos até à loja de animais. Estava uma chinchila linda a olhar para nós mas ele tinha o esquilo em mente.

Obviamente vinha super assustada. São animais que, no seu habitat natural, são presas e estão constantemente alerta. Foi difícil fazê-la confiar em nós mas dávamos-lhe guloseimas com ajuda de um pauzinho chinês para ela nos associar a comida e com muito trabalho foi-se habituando à nossa presença e aos nosso barulhos. Comprámos um gaiola enorme onde colocámos ramos de árvore para ela saltar e estar mais facilmente ao nível do parapeito. Todas as manhãs lá estava ela a apanhar uns banhos de sol. Devagar conseguíamos abrir a porta da gaiola e com a ajuda de um amendoim fazer com que se sentasse na nossa mão e assim começámos a fazer-lhe festinhas. Mais tarde começámos a deixar a gaiola aberta e a vassoura à porta para ela descer e subir quando quisesse e explorar a casa. Nunca fez necessidades fora da gaiola mas roeu o sofá da sala e fez um ninho lá dentro 

Tinha uma cauda linda mas nos seus últimos anos deve ter desenvolvido alguma ansiedade e ficou com cauda de ratazana, tadita... Viveu connosco 7 anos. Ainda me lembro da manhã em que a minha mãe a encontrou gelada na gaiola, já morta. Fizemos-lhe um pequeno enterro nessa noite.

102_1584.JPG

06
Jan21

compromisso

Esta história da Di sugou-me num buraco negro e regressei a 2014. O primeiro de três anos lancinantes. Um ano em que deixei de, praticamente, existir.

Quando decidi extinguir a minha presença das redes sociais (porque hoje em dia não existimos sem presença virtual - perceba-se!) depois de um jantar onde me senti dispensável (na altura sentia-me dispensável em qualquer sítio, na verdade) a minha depressão instalou-se a sério. A única pessoa que me fazia companhia a sério e com prazer tinha acabado de casar e fui afastando os meus colegas de trabalho. As minhas funções estavam a tornar-se bastante stressantes e não estava a conseguir manter boas relações com a equipa. Quando se está noutro país sem contactos e se trabalha em hotelaria (é a minha experiência), o trabalho é um porto seguro onde se criam laços. Na altura não me sentia confortável no trabalho nem em casa e não tinha ninguém em quem confiar nem em quem confidenciar.

No meio do meu caos, uma pessoa aproximou-se. Um colega de trabalho. O que o aproximou não foi sentimento romântico. Nem eu o via a essa luz. Nunca o vi. Saíamos para café ou chá, cinema. Talvez tenhamos jantado uma ou outra vez até ter compreendido o real motivo deste interesse: amizade colorida, a tal que vem num pacote vendido com benefícios. A conversa mudou totalmente, as chamadas telefónicas mais frequentes, com um intuito apenas.

Conto esta história pela perspetiva que tenho hoje porque na altura não compreendi porque me comportei de certo jeito e martirizei-me por isso.

Da necessidade e desespero de ter alguém ao meu lado, de que forma fosse, perdi o pouco amor próprio e a réstia de respeito que tinha por mim. Um dia, numa estação de metro, enquanto nos despedíamos e ele fazia a pressão que se tornou habitual para ir para casa dele enquanto me explicava detalhadamente os malabarismos que faria comigo, fiz a pergunta: "então e eu?". "Não fui feito para ser namorado de ninguém", responde. Lembro-me de pensar para mim que a pergunta não tinha sido bem feita porque aquela resposta não lhe correspondia. Não a tinha feito nesse sentido. Também não queria um namorado. Não procurava uma relação. Deixei a situação arrastar no tempo. Ia-lhe dando falsas esperanças enquanto mantinha alguém "ao meu lado". Triste mas uma realidade que é bastante comum e acho que, muito por causa desta experiência, hoje gosto muito de franqueza e muito pouco de rodeios.

Um dia lá me decidi a ir com ele e quando o ambiente já estava bem aquecido, pedi-lhe para parar. Ele continuou a tentar e eu pedi para parar. "Estou dececionado", diz-me. Tentei ir para casa mas já não havia transportes pelo que tive de lá dormir. Na manhã seguinte, o processo repete-se e volto a ouvir que o dececionei. Ele foi tomar banho e feita parva ainda fiquei à espera. Fiquei à espera para que saíssemos juntos até à cidade. Cheguei a casa, fechei-me no meu quarto, odiei-me e voltei a cortar-me.

Na altura não saberia explicar mas hoje sei que quando perguntei "então e eu?" referia-me a alguém que se preocupasse realmente comigo e não me quisesse usar. Ainda estou para conhecer alguém com uma auto estima mais baixa que a minha, tenho imensos defeitos e um deles é mesmo não ter um mente aberta para certas coisas e ser inflexível para outras mas, como qualquer pessoa (e não me venham com tretas), todos buscamos validação exterior porque estamos todos bem longe de ser uns Budas iluminados.

desenho de Ferdinand Hodler

20
Abr20

Viagens

Há 8 anos decidi partir. Fui de férias e não voltei.

Foi a minha fuga à vida em Portugal. Não fui em busca de um el dorado, fui simplesmente à procura de mim. Aprendi imenso sobre o mundo e o tanto que perdia e perdi a dar importância às coisas erradas.

Para contrariar as tendências modernas, nunca fui apaixonada por viajar. Nunca pensei no assunto, sequer. Do muito pouco que tinha viajado, lembrava apenas das piores partes as viagens de um ou mais dias em carro ou autocarro.

Há 6 anos, com alguma segurança financeira, decidi passar 9 dias no sul de Espanha, sozinha. Depois desta, vieram tantas outras mini aventuras. Gosto de parar e absorver o que de maior há além de mim.

A viagem obriga-me a abandonar as minhas rotinas e a enfrentar o que possa correr mal ou o que não estava planeado; obriga-me a saber defender-me, a lidar com pessoas e a corrigir formas de ser e estar. A sair da minha zona de conforto.

Sempre me considerei uma pessoa independente, sem vontade de dar satisfações e é apenas nestas alturas que o consigo fazer.

Viajar é enfrentar todos os meus monstrinhos mas conseguir disfrutar da minha independência.

De Lisboa segui para Faro de comboio numa manhã no final de Maio. Nessa noite dormi em Sevilha. Seguiu-se Córdoba, Granada, Málaga e Gibraltar de onde, já em Junho, voltei para casa.

Todas as fotografias são minhas. O Rochedo de Gibraltar, a cidade de Málaga, o palácio de Alhambra em Granada, a Mesquita-Catedral de Córdoba e a Praça de Espanha em Sevilha.

13
Abr20

Memórias

Isto deve acontecer com todos nós mas esta manhã, enquanto puxava as orelhas à cama, vi-me enrolada num emaranhado de memórias.

Lembrei-me que tenho uma consulta com a minha nutricionista. Pesei-me esta manhã mas este tempo em confinamento obriga-me a comer da forma errada. A minha dieta foi pelo ralo abaixo e ainda não consegui motivação para cortar nas comidinhas que fazem mal nem para uma corridinha à volta do quarteirão.

Há uns anos uma chefe minha, italiana, dizia-me (ler com sotaque italiano) "Ines! You are a procrastinator!" e sorria. Foi a única que se apercebeu, numa equipa de mais de 20, que algo de errado se passava comigo. Mas decidiu não se envolver.

Compreendo-a.

Esta foi, de longe, uma das melhores empresas onde trabalhei, ainda assim. Formação constante, a todos os níveis da hierarquia, possibilidade de experimentar outros departamentos e de subir na carreira com relativa facilidade e rapidez. Competitividade saudável.

Não era perfeito, obviamente, mas chegada a Portugal deparo-me com uma realidade totalmente diferente. Uma pessoa está encarregue da sua tarefa e pouco interesse demonstra em aprender algo mais. Não há abertura da empresa para isso. Não há interligação entre departamentos, não há interesse em ensinar nem encorajar o crescimento e conhecimento. Chefias lideram através de medo e ego.

Ao fim de 2 anos e meio noto em como tenho auto sabotado todas as minhas experiências.

Toda a minha vida.

imagem aqui

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