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A Introvertida

Introvertida. Intuitiva. Sentimental. Perceptiva.

15
Mai22

uma carta para alguém

Por volta de Novembro do ano passado, decidi escrever a carta que se segue, e enviá-la por correio a duas amigas com quem deixei de falar repentinamente.

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Estive meses a tentar descobrir como retomar contacto. Escrevia e apagava porque nada justificaria a minha atitude e o meu comportamento. Mas achei que a forma mais fácil fosse, simplesmente, contar uma breve história, com muitos atalhos, sobre mim. Porque as pessoas conhecem o meu eu do dia-a-dia mas não conhecem a minha história e como me afecta.

Tenho uma depressão há, mais ou menos, vinte anos. Não é há dez dias nem alguns meses nem quatro anos Não houve nenhum acontecimento que me tenha marcado mas foi um estado de espírito que se foi impondo ao longo do tempo. Lembro-me de, em miúda, ser mais extrovertida mas a partir de uma certa idade mudei bastante. Fui muito gozada tanto na escola como em casa e passei a ter medo e vergonha de ser eu própria porque qualquer coisa que fizesse ou dissesse de forma genuína seria motivo para gozarem comigo. Este tratamento estendeu-se por vários anos sem nunca ter alguém que me orientasse nem ensinasse a lidar com o assunto. Na altura não se falava destas coisas e nunca ninguém me deu a devida atenção. Tive acne grave, cortei o cabelo curto, vestia roupas largas para passar despercebida mas, ainda assim, era alvo de piadas. Nunca tive muita atenção de outras pessoas e nunca fui capaz de criar amizades a sério. Tive, até aos 14 anos, um grupo de amigos na escola mas cuja relação nunca se baseou em confiança ou confidência. Nunca me senti inserida em grupos porque nunca tive nada em comum com os outros. Tornei-me passiva por não ter experiências para contar nem nada para partilhar. Aos 14 anos mudei de escola e muita coisa mudou. Não fiz amigos nem tinha amigos. Nem mesmo conhecidos. As minhas férias de verão eram passadas em casa, com vergonha da acne, em frente à televisão ou ao computador, a jogar. Não tinha internet nem TV Cabo como toda a gente por isso os meses de férias eram para ver filmes em repeat, sempre os mesmos, a fazer bolos e quando tinha de ser, fazer jantar quando o meu pai não estava em Portugal ou a minha mãe chegava tarde a casa. Não tinha amigos com quem sair, nem de dia nem de noite, não tinha namorados nem rapazes interessados em mim. A minha adolescência desenrolou-se na minha cabeça, na minha imaginação e em fantasia. Os anos que, supostamente deveriam ser passados em busca de quem somos, a desenvolver uma personalidade concreta, a minha foi passada na maior solidão que possam imaginar. Não raras vezes adormecia a chorar para não conseguir sair da cama na manhã seguinte. Sempre desprezei pessoas que afirmassem sentir-se deprimidas porque “isso é preguiça e falta de ocupação” que, na realidade, era o que se passava comigo. Sempre achei que a minha salvação estava na faculdade. Quando nada mudou nos anos de faculdade, o trabalho seria a minha salvação para, apenas, constatar novamente que nada mudaria e apenas pioraria. Porque aqueles que seriam os anos mais excitantes para todos, eu passei-os a falar sozinha, para as paredes que nunca me respondiam. Não desenvolvi aquelas faculdades que nos ajudam a vingar no mundo quando chegamos a adultos. Não sei lidar com pessoas nem com os seus sentimentos porque estou demasiado imersa na minha bolha e nos meus próprios sentimentos e pensamentos. Não tive verões passados na praia com amigos e saídas à noite. Nunca passei o fim de ano fora de casa a divertir-me com os meus pares. Nunca tive festas de anos porque não tinha ninguém para convidar. Arrisco a dizer que não sei o que são emoções positivas.

A entrada no mundo do trabalho revelou-se uma prova (perdida) à resiliência que não desenvolvi. Em nove empregos por que já passei, fui convidada a sair de dois sítios e pressionada a sair de outro. De resto, tenho demonstrado pouca capacidade para aguentar um emprego porque não consigo sentir satisfação e só me concentro nos aspectos negativos das minhas tarefas, do ambiente e da empresa. Sou incapaz de me focar nas coisas positivas e tentar melhorar a minha performance. Caso mau estar nos demais, fecho-me em copas e torno-me desagradável, confrontadora e conflituosa. A minha vida não tem nenhuma dimensão senão a profissional. E já que falhei em todas as outras, quero forçosamente ser boa a qualquer coisa a nível profissional, só não sei o quê porque não há nada que faça bem. Sinto-me incompreendida. Sinto que nunca ninguém está disponível para me ouvir muito menos para compreender. No trabalho e na vida em geral. Não tenho presença, sou invisível e pouco marcante embora queira ser o exacto oposto. No trabalho e na vida em geral. Não sou extraordinária nem tenho grandes capacidades. Aos 34 anos estou presa à mente de uma miúda de 12 numa luta e numa corrida para se encontrar internamente porque NÃO SEI QUEM SOU!

A frustração, a raiva e o medo tornaram-se tão opressores que, por volta dos 25 ou 26 anos comecei a descarregá-los em mim própria através de murros nas paredes, golpes em mim própria e, eventualmente, a cortar-me. A dor física desvia a atenção da dor emocional, deixei de conseguir controlar os meus pensamentos e comecei a imaginar a melhor forma de “desaparecer” porque tinha a certeza que ninguém daria pela minha falta. Aos 27 tive um diagnóstico de depressão cuja medicação pouco ou nada fez por mim. Em 2019 tive um diagnóstico de depressão bipolar tipo 2. Não sou bipolar. Tenho uma depressão bipolar. A bipolaridade nada tem a ver com múltiplas personalidades, tem sim a ver com mudanças drásticas de humor.

Depressão não é apenas tristeza nem necessidade de atenção e aprovação como já me foi dito. É apenas uma parte ínfima do que é sentir um desgosto tão grande que leva tanta gente à morte. A depressão isola-nos porque não queremos ser um fardo para os outros, porque apenas temos a nossa dor para partilhar. Todos queremos saber da felicidade de outros e de partilhar coisas boas mas ninguém quer saber daquela pessoa que está de “mau humor”, ninguém pergunta como está mesmo que aquele seja um momento em que o apoio é realmente necessário.

Depressão é tristeza, repulsa, raiva e medo e todos os sentimentos que daqui advêm que são muitos e muito intensos e que têm o poder de nos esmagar e perder a vontade de viver.

Neste momento sei quem sou apenas por comparação com os outros. Com quem me rodeia e com quem vou convivendo no meu dia-a-dia. Sou uma pessoa introvertida e muito sensível e emotiva que precisa de tempo e espaço a sós para me recompor. Como ser humano, preciso de estar com outros seres humanos mas a minha energia, além de se esgotar com muita facilidade, precisa de mais tempo para se recompor. Prezo muito o meu tempo a sós comigo – talvez mais que vocês – porque sou introspectiva. 2019 foi um ano muito difícil para mim, foi um ano em que me senti muito sozinha e essa solidão passou a rancor e envolvi-me, novamente, numa espiral depressiva.

O último ano foi muito calmo, com alguns picos de ansiedade brutal, muito choro e desespero mas faço um balanço positivo. Sabia que o retorno ao quotidiano seria difícil, que foi e continua a ser todos os dias. E todos os dias me apetece desistir quando o mais pequeno contratempo me deita abaixo, quando me sinto invisível e incapaz de fazer a diferença.

Se tiver de nomear um sentimento que me acompanha todos os dias, seria a vergonha. De ser quem sou e como sou. Vergonha das coisas que já fiz e que já disse e ainda assim parecer que não me torno uma pessoa melhor. Tenho vergonha de ter causado mau estar e sofrimento a outras pessoas. Serei assim tão importante na vida de alguém que alguém sinta rancor de mim? Vergonha da forma como me sinto e de como reajo aos outros e de ser incapaz de dar a volta à minha vida e fazer algo que me faça sentir melhor. O medo tem regido a minha vida e não me consigo desfazer dele. Traz-me insegurança e auto-estima fraca, fraqueza de espírito e uma ansiedade que, de crónica, já nem me apercebo que cá está. Sinto-me incapaz de amar (não só de forma romântica) e todos os dias duvido da minha capacidade de sentir algo bom e positivo.

É fácil dar conselhos, mas quem os dá, na sua ingenuidade, não percebe que torna tudo pior. Porque se fosse fácil sair de uma depressão, ninguém a sentiria. Se um sorriso fizesse a diferença, por que razão ainda me sinto assim ao fim de tanto tempo? Que diferença faz ter alguém ao meu lado que cuida e quer saber de mim se só me sinto culpada? Por ter tudo o que preciso e não me sentir feliz ou, pelo menos, contente. Uma depressão de 20 anos dificilmente terá cura e, neste momento, tornou-se mais importante para mim saber geri-la do que procurar livrar-me dela.

Não tenho intenção de magoar as pessoas à minha volta e, por essa razão, decido afastar-me porque não sou uma boa companhia. Principalmente quando quem está à minha volta se sente feliz e não sou capaz de a sentir nem de a partilhar.

(...)

Escrevi esta carta com o intuito de me fazer conhecer porque esta é uma faceta minha que pesa imenso na forma como sou. Não posso nem consigo explicar a complexidade da minha pessoa porque isso requereria compreensão total da vossa parte e não posso esperar isso – por realismo e para manter expectativas saudáveis.

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Em resposta ao desafio da Ana de Deus.

03
Mai22

escreve sobre o teu dia

2 de maio

dormi relativamente bem. talvez umas 6 a 7 horas. que para uma viragem de domingo para segunda, são, deveras, bastantes horas.

como já não tenho medicações a tomar, decidi passar a tomar só o lanche da manhã. em vez de comer assim que me levantei, fiz um xixi, lavei a cara no lava loiças (tenho a casa de banho em obras e só conseguimos usar a sanita, felizmente!), vesti-me e saí um pouco mais cedo, por volta das 6h25, para ter tempo de carregar o meu passe para o mês de maio. as máquinas não aceitam a minha nota de 50€... não aceitam o meu cartão e a bilheteira só abre às 6h45. o meu comboio é às 6h43. não tenho dados móveis porque a meo é abusada e usei os meus últimos cêntimos de saldo para enviar uma mensagem a um colega a avisar que chegaria atrasada e que avisasse o segurança para que não saísse sem eu chegar.

apanhei o comboio às 7h05. a hora a que chega ao cais do sodré - 7h26 - coincide com a hora a que o meu autocarro sai. para não esperar muito tempo ao vento, decidi-me a ir cuscar o café jeronymo e saí de lá a emborcar um folhado misto ainda morno. bolas! senti-me bem culpada...

com sorte, cheguei mesmo às 8h00 em ponto ao trabalho. corri a ir lavar os dentes e a colocar creme na cara antes de começar o dia. logo depois segui com a tarefa que urge logo de manhã enquanto multitasko noutras tantas tarefas. as minhas manhãs passam a correr! as manhãs de segunda parecem-me super sónicas enquanto me distraio com tudo o que tenha entrado durante o fim de semana e seja urgente tratar. por volta das 9h00, e já com um chá verde tomado, como a minha mistela de frutos secos - amêndoa, amendoim, sementes de abóbora e girassol tostados e triturados, com farinha de linhaça e chia (e acho que não me falta nada) com uma ameixas secas. tudo demolhado em bebida vegetal de aveia. (só gosto de leite com chocolate!). tomo o meu multi vitamínico e volto a encher mais uma caneca com água.

recebi uma encomenda com duas sandálias que mandei vir para experimentar. fiquei muito contente com um dos pares. vou devolvê-los e volto a comprar as que mais gostei mas de uma cor que mais favorece os meus pés leitosos.

termino mais umas tarefas urgentes e saio para almoço às 12h45 mais ou menos. escolhi strognoff, que acompanhei apenas com salada e não consegui resistir a molhar o pãozinho no molho! dois quadrados de chocolate negro 85% e uma laranja.

se as manhãs são super sónicas, não tenho forma de adjectivar as tardes... assim que voltei, preparei mais um chá, deste vez de erva príncipe. um favorito. e enquanto o beberico, preparo uns documentos para oferecer a um colega. volto ao trabalho. emails e mais emails. incrível como passamos horas a responder a emails e sinto que nada fiz...

às 15h20 mudo de local de trabalho para, supostamente, auxiliar um colega com as saídas dos miúdos da escola e ajudar a orientar os condutores das carrinhas se assim for necessário. digo supostamente porque ele não precisa de ajuda mas parece que criámos um hábito ritual de passar a minha última hora e meia de trabalho ali. na conversa. na galhofa. emborco um pão com doce por voltas 16h00 e, por volta das 17h30 um dedo de twix com caramelo salgado.

faço sempre horas extra. por um lado por a viagem para casa ser longa, por outro, porque fico na conversa. hoje consegui sair hora e quarto mais tarde. num pico de ansiedade, comi de forma desregrada que me deixou bastante mal disposta. aproveitei para fazer uma caminhada entre o terreiro do paço e o cais do sodré.

comboio, supermercado, 10 pães de queijo, chá de hortelã pimenta e cama. cheguei a casa para descobrir que nos arrancaram o chuveiro. duche só amanhã, no trabalho.

em resposta ao desafio da Ana de Deus

18
Abr22

Paixoneta

tenho estado para escrever sobre a minha paixoneta há algum tempo. porque já não sei se é só uma paixoneta. se é mais ou se é menos. se o sentimento é meu e original ou se foi aprendido e crescendo em mim.

faço estas perguntas porque tenho na minha vida uma pessoa para quem nunca olharia uma segunda vez se passasse por mim na rua. é extrovertido, tira-me do sério, tem maneirismos que me irritam e a sua (falsa) auto-estima roça, para compensar, a arrogância. temos origens e estilos de vida muito diferentes. mas concordamos em algumas coisas. "nem sou bonito", diz ele. e não é. consigo ver nele tudo o que não mostra ao mundo nem quer mostrar. vejo nele uma necessidade de desabafar e mostrar-se vulnerável. que faz, já fez e quer continuar a fazer.

há uns meses atrás reparei que ele começou a dar-me mais atenção e a minha, por arrastão, também se começou a virar para ele. daí não conseguir perceber se o meu interesse é legítimo se é apenas prazer em ser alvo de atenção de alguém. e dou por mim a querer estar com ele, a querer tratá-lo como se fosse mais que um amigo. noto e sei que ele se preocupa comigo e apenas consigo reciprocar. mas também não sei se é por querer realmente o bem dele se é apenas para nivelar o cuidado que ele tem comigo.

já jantámos e sinto que ficou imenso por dizer e contar. e falamos todos os dias. começou por ser só de manhã, depois de manhã e à noite e agora já preenchemos os nossos dias com trocas de palavras, de impressões, de interesses.

Em resposta ao desafio da Ana de Deus.

mal me quer.jpg

ilustração criada em Canva

04
Abr22

8 factos sobre mim

porquê oito?

1. fui nascer a cascais mas nunca lá morei. gosto de lá ir passear mas não me identifico com o lugar.

2. sou uma pessoa esquiva. tenho medo de me comprometer, de criar ligações. gosto de desaparecer sem que os outros reparem. não faz grande diferença.

3. tive a péssima ideia de tirar um curso superior em turismo. hoje arrependo-me de ter ido logo para a faculdade. parece que não tinha tempo a perder e quis fazer tudo em cima do joelho, sem pensar. como introvertida não gostei do ambiente universitário, não gostei do curso e não me serviu de nada. aterrei numa área que fui aprendendo a detestar cada vez mais. mas pronto...

4. acredito em civilizações extraterrestres mais evoluídas que a nossa e que influenciam a vida neste nosso planeta (e já não me importa que se riam de mim). desde que me conheço que adoro falar sobre estas coisas.

5. vivi pouco mais de 5 anos em Londres e foram os melhores e piores anos da minha vida. os piores anos pela solidão e desespero que senti mas que me ofereceu uma auto estrada para o entendimento que ganhei de mim mesma. os melhores, por isto. pelo auto conhecimento que proporcionou mesmo que só me tenha apercebido disso mais tarde.

6. já visitei 13 países, incluindo Portugal (não tinha noção de serem "tantos" até os contar agora ). acho que a coisa mais turística que fiz foi visitar Veneza num fim de semana de Páscoa. fatal!

7. tenho muito interesse e uma curiosidade enorme no oculto. e quanto mais leio e aprofundo, mais compreendo que tudo é como deve ser.

8. na semana passada comecei um diário de voz. ainda só consegui uma entrada. não pensei que fosse tão difícil. a ideia é não utilizar um computador ao final do dia para fazer um balanço diário. um monólogo leva menos tempo a produzir mas ainda me sinto tímida.

Em resposta ao desafio da Ana de Deus

lucky number 8.jpg

ilustração criada em Canva

28
Mar22

Formas de ganhar o meu coração

hmmm... tenho de ser honesta e dizer que não sei... 

gosto de um gajo bem desenrascado. se cozinhar decentemente ganha pontos.

afectuoso e carinhoso mas que me dê espaço.

compreensivo e empático. honesto, claro. confiante e humilde.

se me ensinar alguma coisa também ganha pontos.

aventureiro e curioso. sentido de humor para ter certeza que não se ofende com facilidade.

que cuide de si externa e internamente. sem extremismos.

confiante q.b. e que não tenha medo de se expressar nem de falar. que saiba escutar.

bons abraços são sempre bem vindos.

acho que a parte da comida é mesmo importante 

mas e se a tal química não existir? conquista-se na mesma?

 

Em resposta ao desafio da Ana de Deus

the way to the heart.jpg

ilustração criada em Canva

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