Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A Introvertida

Introvertida. Intuitiva. Sentimental. Perceptiva.

18
Jun20

Cocas

Costumo dizer que herdei os defeitos do meu pai. Mas foi ele que me passou o gosto por duas das coisas que mais me fazem feliz: natureza e animais.

Quando o Cocas veio cá para casa, eu não estava cá. Foi adotado uns meses depois de eu ter saído do país.

Cresci num ambiente pouco harmonioso, pesado onde a comunicação nunca abundou. Desde que voltei, há 3 anos atrás, notei como este gato se tornou um elo de ligação entre os membros desta família. Passou a ser o foco da casa, o membro mais importante e provavelmente o mais bem tratado!

Nunca tivemos animais. Em parte porque vivemos num apartamento (a desculpa que nos davam) e as responsabilidades iriam sempre ser dos mesmos (mas no fundo é sempre assim). A questão da limpeza era outra barreira para termos animais, e a disponibilidade para saídas à rua no caso de termos um cão e deixá-lo em casa sozinho (já tivemos vizinhos que deixavam a cadela a chorar todo o dia).

O Cocas chegou-nos através de família e veio para evitar que ficasse fechado na transportadora todo o dia. É um siamês amarelo de pelo denso, super dócil e que adora ser mimado. Não gosta das coisas que um gato normal não gosta... ser lavado, ser pegado ao colo, aspiradores e ir na transportadora mas é louco por peixe, festas na barriga e ser escovado.

Costumamos dizer que lhe saiu a sorte grande mas a nós também.

07
Jun20

Caça-Sonhos

Depois de terminar a minha licenciatura houve um período de incerteza. A maior sendo se teria sido o melhor curso a fazer e se ía sequer conseguir um emprego que me satisfizesse. Consegui, ainda nesse verão, um emprego temporário (por sinal bem pago) que se tornou um bebé de 9 meses. Andava bastante perdida e tentei complementar o meu curso com outra licenciatura através de equivalências e ainda cheguei a frequentar algumas aulas. Era suposto fazê-lo com uma amiga da licenciatura mas esta abandonou-me. Deixou totalmente de ir às aulas sem me dizer e senti-me abandonada. Apesar de não ser muito mais velha que os miúdos do 1º ano, não estava preparada para passar por aquilo outra vez.

Voltando um bocadinho o tempo atrás, detestei os meus anos de faculdade, passaram-me todos ao lado, por cima, em todas as direcções menos na minha e arrependo-me IMENSO de não ter mudado de curso. A verdade é que na altura não saberia o que fazer como alternativa e a minha condição mental estava muito enfraquecida e limitei-me a ver passar o tempo.

Decidi, então, fazer uma pós graduação que correu bem. Pessoas adultas, profissionais que estavam ali pelo gosto e não pela pressão e necessidade de ter boas notas. O próprio programa da pós graduação foi feita nesse sentido. Tinha disciplinas bastante específicas e outras feitas para nos divertirmos. Uma delas era inteligência emocional. Um assunto que sempre me interessou e tenha, talvez, sido das poucas coisas que trouxe comigo dessa altura e nem por isso, de fácil aplicação: ver sempre o lado leve das coisas. Ganhar a capacidade de ver humor na tragédia. Não levar a sério tudo o que nos acontece.

Sabemos, por experiência, que por muito que estejamos em baixo e nos sintamos impotentes, tudo passa e quando analisamos o passado relativizamos e minimizamos a dor que sentimos na altura.

Numa dessas aulas, a um belo sábado à tarde, estava a turma sentada em círculo, preparada para responder a uma simples questão: quais os teus sonhos? Todos tinham algo que queriam fazer e objectivos a atingir, menos eu. No final da ronda, esquecendo-se que alguém tinha dito que não tinha sonhos, o professor diz: "não ter sonhos é das coisas mais tristes da vida".

E aí, sim, senti-me bastante triste. Não apenas por não ter sonhos mas por se terem esquecido que alguém, ali, não tinha sonhos.

IMG_20200607_195051.jpg

23
Mai20

Na Linha

Se pudesse, agora, estaria sentada no banco de um qualquer comboio com destino incerto. Sabia-me bem sair daqui e fugir à responsabilidade. A minha alma implora por aventura. Preciso da liberdade. De me libertar da rotina que se impôs, livrar-me do desespero entranhado.

Se pudesse, agora, via a paisagem passar de trás para a frente, pela janela de um qualquer comboio com destino incerto. A paisagem seca, amarela e azul, vazia de gente, sem sentido. Quero perder noção do tempo, não saber quem sou nem olhar-me ao espelho.

Se pudesse, agora, seria invisível.

IMG_20200522_122839.jpg

16
Mai20

Primeiro Olhar

A conversa foi íntima, pouco casual e foi fácil.

Foi fácil olhá-lo nos olhos e abrir o coração. Falar de medos e desejos e quase segredos. Nunca, num primeiro contacto, me tinha sentido tão bem com alguém.

Dez minutos passaram a correr. Era todo o tempo que tínhamos mas foram proveitosos.

A química estava lá. No primeiro olhar, no primeiro toque e no primeiro beijo.

IMG_20200515_162816.jpg

 

13
Mai20

Pausa

Está uma tarde caótica! Telefones não param, não consigo fazer o meu trabalho, está tudo atrasado e ainda tenho de fazer uma visita a um cliente. Estou ao telefone há 20 minutos e há, pelo menos, 10 deixei de ouvir as queixas de quem, do outro lado, acha que sou saco de porrada. Estou farta, pensei. Descansei a caneta, reclinei-me para trás e inspirei bem fundo. Peguei no telemóvel. "Café?" dizia a mensagem. Sorri e respondi que sim. Despachei a chamada, peguei na minha tralha e avisei a equipa que tinha uma visita.

Nervosa, ainda esperei um pouco por ele. Nunca nos tínhamos conhecido mas sabia que não era difícil identificá-lo. Já falávamos há um mês mas nunca tínhamos conseguido conciliar horários. A conversa sempre fluiu, sempre foi boa mas e se não houvesse química?

Adiantei-me e pedi 2 cafés esperando que ele não se ofendesse e no mesmo momento em que foram servidos, ele chegou. Sentámo-nos. Nenhum dos dois tinha muito tempo e sabíamos que íamos atar pontas soltas das conversas escritas que tivemos.

IMG_20200512_163734.jpg

 

08
Mai20

Em Pontas

Desde a escola primária que a Mariana tem aulas de ballet. Não se lembra de um dia da sua vida que não tivesse calçado um par destes sapatos e já perdeu a conta em quantos dançou. Nunca soube descrever o que sentia quando subia ao palco e atuava mas, por muitos pares que tenha gasto, nunca se esquecerá da prova para o primeiro par de sapatilhas em ponta. A verdadeira passagem, o ritual máximo na transformação de menina a uma bailarina a sério. Orgulhosamente, fez questão de ser ela a cozer as fitas ponto a ponto enquanto a mãe observava. Ninguém sabe mas essas fitas estão com ela todos os dias e sempre que prepara um novo par, volta a ter 11 anos outra vez.

Vi tantos vídeos sobre provas de sapatilhas de ponta e como calçá-los que neste momento sei a teoria toda de como prepará-los para dançar.

04
Mai20

A Nave

Desconfortavelmente sentada entre as 2 pessoas que mudarão o meu futuro, espero enquanto todos os protocolos e testes são minuciosamente finalizados para a descolagem. O fato pressurizado e toda a parafernália obrigatória para uma viagem ao espaço começa a incomodar-me. Os nervos assomam-se e só me apetece desistir. Mas não quero deitar por terra todo o esforço e investimento do último ano. Com 11 mil milhões de pessoas com olhos postos em mim, não quero fazer mais merda na minha vida.

A verdade é que estou por minha conta, prestes a enfrentar o desconhecido. Bem podia estar a caminho do meu próprio velório que ninguém quereria saber. Sou um ratinho de laboratório, mais uma vida que será ceifada em nome da ciência.

Mas não estou a ser totalmente honesta, ou estarei? Deixa de te fazeres de vítima! Vais porque queres, porque te voluntariaste.

Estamos no ano de 2099. Depois de várias décadas de pesquisa, testes e desenvolvimentos com ajuda de tecnologia extraterrestre, o Homem está preparado para mais um giant leap.

Neste caso, eu. Uma mulher, 56 anos. Nada a perder.

A contagem decrescente começou.

IMG_20200428_000934.jpg

Não possuindo o material mais adequado nem a qualidade necessária, isto foi o que consegui para o Universo estrelado. Ainda assim foi engraçado fazer isto.

Mais sobre mim

Fórum Saúde Mental Portugal

A Ler

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D