Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A Introvertida

Introvertida. Intuitiva. Sentimental. Perceptiva.

31
Jan22

os meus pais

há já algum tempo que penso em escrever sobre os meus pais. já tive um rascunho que acabei por apagar. acho muito difícil falar deles porque sinto que não os conheço como "pessoas". vejo-os como os meus pais. estóicos, toda a vida dedicados ao trabalho, a construir um futuro e cimentar um caminho mais seguro para mim e para o meu irmão. tanto se dedicaram ao trabalho que quase esqueceram tudo o resto.

os meus pais não se amam. acho que nunca se amaram. desde pequena que lido com as discussões e mau estar entre eles. em privado, em público, à frente de família, à frente de desconhecidos. testemunhei a frieza que os foi separando cada vez mais ao longo dos anos.

o meu pai é muito fechado, não mostrava qualquer emoção que não frustração, tristeza, desapego, muito distanciamento. nunca passámos férias juntos porque ele arranjava sempre algum trabalho que o fazia passar tempo longe de nós. ao meu pai só importava dinheiro. felicidade e bem estar eram secundários. sei que teve uma infância difícil, numa família pobre, prática, fria e dedicada ao trabalho. nunca conheci os meu avós paternos. aos 9 anos veio para lisboa e não parou de trabalhar até aos 67. mesmo depois de reformado necessitou dedicar-se a uma função para se sentir bem. estudou na casa dos 30 mas por conta de decisões mal pensadas, egoístas e orgulhosas, nunca conseguiu estabilidade profissional o que o frustrou ainda mais e cada vez mais. foi-se multiplicando, chegou a ter 2 empregos e a fazer biscates para conseguir pagar o nosso apartamento. que o fez em tempo record com, obviamente, muita ajuda da minha mãe. o meu pai é orgulhoso, roça a arrogância mas, no fundo, é pura frustração por saber que poderia ter conseguido mais e não conseguiu. talvez por achar que perdeu tempo com coisas que hoje acha não valerem a pena.

nunca presenciei um momento harmónico entre ambos. sempre senti muita tensão e mau estar. ressentimento? não sei... o meu pai quis deixar-nos e a minha mãe descobriu-o por terceiros. por não ter sido capaz de nos deixar, procurou trabalho no estrangeiro, onde esteve alguns anos, para ter o seu espaço. contudo, destruiu-lhe a saúde. o meu pai é o perfeito exemplo de como as emoções mal geridas dão lugar a doenças físicas.

a minha mãe é o oposto do meu pai. também de origens humildes, trabalhadora desde os 12 anos contudo, com memórias mais felizes. é sociável, faladora, quer fazer coisas. independente apesar de ter sido quase totalmente controlada financeiramente durante a sua vida com o meu pai. sinto-lhe a humilhação e tristeza por estar grande parte da sua vida associada a um homem que não a vê como igual (não tem nada a ver com machismos. o meu pai nunca me passou a mensagem de que mulheres são inferiores ou que não podem fazer o que os homens fazem). que a rebaixa por não ser estudada ou que, constantemente, lhe rouba razão e opinião. sente-se desvalorizada e agora, em idade de reforma, diz que já não se cala e que há de dizer tudo o que lhe faltou dizer. e as discussões prolongam-se, o mau estar ainda é constante. a conversa é parca e superficial. as memórias que vou tendo da minha mãe são de uma pessoa cansada, sem direcção, sem propósito. não poucas vezes chegava a casa do trabalho e recusava-me um abraço. mas não a condeno. não a culpo. eu poderia ter feito mais, ajudado mais.

como qualquer casal, como qualquer pessoa, os meus pais estão longe de serem perfeitos mas passaram-nos, a mim e ao meu irmão, valores que nos têm orientado muito bem na vida. distingo o bem do mal sem nunca prejudicar os outros. nós quatro somos um exemplo muito forte de relações kármicas. e não nos ficamos por esta vida.

resposta ao desafio da ana de deus

pas.jpg

ilustração minha

2 comentários

  • Imagem de perfil

    infp 31.01.2022

    Tenho consicência do sofrimento do meu pai. Não sei muito sobre a história do meu pai quando veio para lisboa mas sei que alugava um quartinho na rua da palma. não sei, sequer, imaginar o que terá passado.
    Obrigada pela visita e pelo comentário. Resto de boa semana 
  • Comentar:

    Comentar via SAPO Blogs

    Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

    Este blog tem comentários moderados.

    Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

    Mais sobre mim

    Setembro do Auto Cuidado

    A Ler

    Arquivo

    1. 2022
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2021
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2020
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D