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INFP

Introvertida. Intuitiva. Sentimental. Perceptiva.

13
Jun20

À Noite no Deserto

Se ainda havia, àquela hora da manhã, vestígios de sono nas nossas caras, desapareceram naquele instante.

"Kashaaaaan, Kashan, Kashaaaaaan" gritava, nos últimos minutos, o condutor do autocarro em direção a Kashan. Rimos, por entre olhares, desta forma tão rústica da última chamada ao embarque.

Já tínhamos acordado tarde e achámos que não íamos aproveitar o dia como queríamos, mas arriscámos. Como estava a ser hábito nas viagens de autocarro, adormeci entre Esfahan e Kashan. Quando chegámos tínhamos, como que por magia, um novo amigo que nos ofereceu boleia para o centro histórico da cidade.

Esperámos pela esposa que o vinha buscar. Não só nos levaram ao centro histórico da cidade como nos deixaram à frente de uma loja de recordações cujo dono se gabava do livro de que era coautor e insistiu que lhe devíamos comprar um excursão. Apresentou-nos as opções e, apesar de não sermos adeptos deste tipo de viagem, acordamos em, pelo menos, almoçar sobre o assunto. Após alguma indecisão mas pesando os prós de todos os tours, arriscámos naquele que parecia o mais radical e, por isso, o que mais valia a pena.

Com a roupinha que tínhamos no corpo e completamente desprevenidos, escolhemos uma excursão de 24 horas com pernoita num caravanserai. A experiência foi bastante anormal para os nossos standards ocidentais mas nunca deixei de me sentir segura mesmo sem perceber, a dada altura, onde estava! Depois de alguns problemas de comunicação e de me rir como há muito tempo não me ria e de um jantar iraniano feito na brasa, sem acesso àquilo que normalmente nos mantém acordados em nossas casas (Internet, televisão e afins), voltámos ao nosso "quarto" para nos pormos mais à vontade. Uma câmara com acesso por uma escadinha com 4 degraus. Sapatos à porta. Lá dentro, a cama feita por 3 ou 4 cobertores no chão e 2 ou 3 para nos taparmos. Para alguns seria o fim do mundo, para mim, apenas um teto sob o qual dormir. Há câmaras que podem albergar até 10 e 12 pessoas. Nesta noite, todos os quartos estavam ocupados.

Por volta das 22h00, ouvimos cantares e gritos de alegria. Dezenas de pessoas dançavam à volta de uma fogueira enorme, música que ecoava pelo deserto fora através das colunas. O dia e hora eram sabidos. Juntavam-se cada vez mais pessoas, apenas de passagem. O regime fica esquecido, os lenços caem e vive-se como se quer viver. Fotografias e vídeos proibidos. No Irão as festas são ilegais mas existem, e esta durou algumas horas. Talvez até a fogueira apagar.

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