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A Introvertida

Introvertida. Intuitiva. Sentimental. Perceptiva.

07
Mai21

À Janela

Não sei o que me deu - talvez seja o tempo que tenho para dar e vender - mas decidi tentar (tentar!...) dar asas à minha criatividade e participar no novo desafio dos pássaros. Sou péssima a escrever porque os pensamentos passam que nem flechas mas vou-me dar uma oportunidadezita.

Segue abaixo o meu contributo em resposta ao primeiro desafio dos pássaros 3.0.

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Adelaide puxou o banco e sentou-se à janela. De braços cruzados sobre o parapeito, fechou os olhos e deixou-se absorver os últimos raios de sol daquela tarde de verão tórrida, tão comum naquela zona, mas ao qual nunca se habituara. O calor afastava da rua a maioria dos aldeãos e os mais irrequietos molengavam-se nos bancos de pedra do largo da Igreja ou faziam conversa fiada à porta do café central. Àquela hora começaram-se a ouvir os primeiros passos do final de tarde. O ranger da gravilha miúda na calçada de granito, das beatas que se apressam nas suas últimas tarefas antes da missa. Ouve-se, de fundo, conversa miúda sobre a roupa que já deve estar seca e os tantos motivos que os levam a sair à rua àquela hora.

O toque dos sinos ecoou por toda a aldeia aumentando o alvoroço e a velocidade das passadas na gravilha. A Igreja já não enchia para a missa como em tempos idos mas continuava a ser um ponto de encontro e, acima de tudo, o ambiente perfeito para mexericos. Era comum as devotas mais velhas ficarem a tecer conversa até noite caída, sentadas nos bancos de pedra, certas de que ninguém as escutava. Adelaide morava numa das muitas ruas que iam dar ao largo da Igreja mas era pouco movimentada. As casas estavam vazias, muitas abandonadas e reivindicadas pela natureza e tantas outras já derrubadas mas tão perfeitas para inquilinos felinos.

Os sinos pararam e, ainda de olhos fechados, virada para o sol, pareceu-lhe ouvir vozes. Já estava habituada ao silêncio e soube que não era da sua cabeça. Atentou, quanto pode, aos sussurros, para ter a certeza de que não era da sua cabeça. Afinal de contas a idade também já pesava. Mas quanto mais se concentrava mais tinha a certeza de que estavam, pelo menos, duas pessoas a sussurrar não muito longe dali. Mesmo ali, ao virar da esquina. Quando Adelaide deixou de sentir o sol na cara, abriu os olhos para fechar a janela e voltar para dentro de casa. No mesmo momento, perdidas nas suas risadinhas e alheadas à sua presença, três moças novas que ela já não conhecia viraram a esquina não conseguindo conter, desta vez, um coro de gargalhadas estridentes.

Woman By The Window, 1936 - Pablo Picasso

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