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A Introvertida

Introvertida. Intuitiva. Sentimental. Perceptiva.

11
Mai20

Marselha

Em 2014 tinha-me fartado de vir de férias a Portugal. Era um retorno àquilo de que tinha fugido e não fazia qualquer sentido colocar-me nessa posição vezes e vezes sem conta. No embalo da minha recém descoberta liberdade, decidi passar uns dias em Marselha. Ouvi de tudo: "Marselha é bonito"; "Vais sozinha? És louca! Aquilo é perigoso!"; "Aproveita". Levei todas em conta e compreendi-as a todas.

Não sou famosa pela minha memória de elefante e os detalhes da viagem têm-se desvanecido com o tempo mas tenho uma característica. As minhas memórias são emocionais. Em qualquer viagem que fiz sozinha senti-me bastante só em diversos momentos mas não são esses detalhes que emergem quando olho para as minhas fotografias. As minhas memórias são sempre boas, felizmente.

Marselha pode assustar. Tem muitos sem abrigo à porta da, provavelmente, mais movimentada entrada na cidade, a estação Saint-Charles. Intimida. Está situada numa colina e, mal saímos, temos um vislumbre do que nos espera lá em baixo.

Tenho-me hospedado em hostels. Para poupar dinheiro, vou comprando comida e cozinhando nas instalações. A ideia de me confinar num quarto de hotel sozinha deixa-me ansiosa e só o faço quando não tenho alternativa. Também é uma oportunidade de falar com pessoas para quebrar um pouco a minha introversão e, quando se proporciona, fazer umas refeições juntos, dentro ou fora do hostel.

Contudo, há coisas que gosto de fazer sozinha e uma delas é mesmo turistar. Ter os meus planos, fazer as coisas ao meu ritmo. Faço, quando possível, tudo a pé. Também o faço porque gosto de me perder. Aprendi que tenho um bom sentido de orientação e mesmo quando este falha, tudo se resolve.

Qualquer vista para o Porto Velho é linda. O brilho do sol refletido na água ilumina toda a cidade velha e não é difícil imaginar como seria a vida, ali, há 2 e 3 séculos atrás. A vida de todos está muito ligada ao mar. Qualquer grupo de jovens sai num barco em direção a zonas mais calmas para namorar, para fazer festas, para apanhar sol... Num dos meus passeios fui dar a um pequenino porto atulhado de barquinhos de pesca, redes e cordas e gaiolas chamado Vallon des Auffes. Creio também ter um ou dois restaurantes onde, com toda a certeza, se servirá peixe fresco. Desconhecia na altura mas parece ser um must quando se visita Marselha.

Como qualquer cidade secular europeia, Le Panier é o bairro velho pituresco da cidade com diversos edifícios fechados, grafitados e salpicados de tantas outras obras de arte. Outros edifícios mais ou menos renovados ainda nos mostram a traça característica da cidade.

Fiz uma excursão de barco aos Calanques, um Parque Nacional, ao longo da costa. Calanques são enseadas conhecidas pelas praias de um azul límpido manchado por algas, ladeadas pelas escarpas rochosas. Voltaria para fazer os trilhos do parque.

Ao largo da cidade existe um pequeno arquipélago. Na ilha mais pequena, If, a antiga fortaleza e prisão serviu de inspiração a Alexandre Dumas para o Conde de Monte Cristo. Eu decidi aportar na ilha maior, Pomègues, e passar a tarde a caminhar.

Tenho um bichinho por catedrais que não consigo explicar e sempre que sejam gratuitas, entro para visitar. Atrai-me, de uma forma sombria, a arquitetura, a decoração, o jogo de luzes, os vitrais. Fui criada católica, fiz catequese e primeira comunhão mas não consigo compreender a religião. Estar ali não é confortável. A Catedral La Major é relativamente recente mas foi construída nas ruínas da catedral velha. A cidade tem, ainda, como cartão postal a Basílica de Nossa Senhora da Guarda, mesmo no cimo de uma colina no 6º arrondissement. Uma zona claramente mais elegante com pequenas boutiques, cafés e restaurantes mais ostentosos.

Tive ainda tempo de travar uma breve amizade com uma espanhola com quem passeei um pouco numa zona menos turística da cidade.

Marselha é uma cidade jovem e com vida onde os mais novos sabem e tomam gosto pela tradição do mar.

A manhã do dia de regresso foi, provavelmente, dos dias mais stressantes da minha vida. Os comboios para o aeroporto estavam atrasados, não havia transporte alternativo, ninguém falava inglês. Saltitei de balcão em balcão, passei fitas e filas e chorei de frustração. Ía perder o meu voo. Milagrosamente lá saiu um comboio, apenas para chegar ao aeroporto e ter o meu voo atrasado em 2 horas 

 

08
Mai20

Em Pontas

Desde a escola primária que a Mariana tem aulas de ballet. Não se lembra de um dia da sua vida que não tivesse calçado um par destes sapatos e já perdeu a conta em quantos dançou. Nunca soube descrever o que sentia quando subia ao palco e atuava mas, por muitos pares que tenha gasto, nunca se esquecerá da prova para o primeiro par de sapatilhas em ponta. A verdadeira passagem, o ritual máximo na transformação de menina a uma bailarina a sério. Orgulhosamente, fez questão de ser ela a cozer as fitas ponto a ponto enquanto a mãe observava. Ninguém sabe mas essas fitas estão com ela todos os dias e sempre que prepara um novo par, volta a ter 11 anos outra vez.

Vi tantos vídeos sobre provas de sapatilhas de ponta e como calçá-los que neste momento sei a teoria toda de como prepará-los para dançar.

05
Mai20

Vamos falar sobre solidão?

Não tinha certeza se havia de publicar este post. Hesitei bastante. Porque formas de sentir são subjetivas mas se falamos sobre distanciamento e isolamento social, parece-me importante compreendermos como a solidão afeta muito mais gente e há mais tempo.

Picos existem em épocas como a que vivemos, mas não podemos virar as costas àquela que provavelmente já se tornou um pandemia ainda antes do COVID 19 existir. E esta pandemia que é a solidão não afeta apenas os idosos.

Identifico 2 tipos de solidão: a física e a emocional.

Sabemos e muito bem através de experiências pessoais que o Homem é um ser social e que o contacto físico é importante para a nossa sobrevivência. Sendo a necessidade de abrigo uma das nossas necessidades mais básicas, não é de estranhar que procuremos essa sensação de bem estar através de um abraço quando o sentido de abrigo não se limita somente à sua forma mais material.

Esta solidão sentiu-se agora. Estar distante e não poder abraçar quem mais gostamos e com quem estávamos todas as semanas. Contudo, e apesar da distância física, temos telefones, mensagens, fotografia e vídeo. Podemos contactar e ser contactados. Mas sabemos... Não é o mesmo! Mas temos uma voz para nos escutar. A voz de alguém que se lembrou que existimos e se preocupou com o nosso bem estar.

Depois, há a solidão emocional. Que pode advir, por imposição, da solidão física ou por razões mais profundas e, aqui sim, subjetivas. Já todos ouvimos dizer que apesar de vivermos num mundo super tecnológico com a possibilidade de nos conectarmos imediatamente com qualquer parte do mundo, esta é, ainda assim, uma sociedade que se queixa cada vez mais da solidão.

Por um lado, esta nova pandemia é um produto da sociedade tecnológica que nos permite fazer quase tudo com um clique sem levantar o rabo da cadeira. E os mais pequenos, que nasceram nesta era, sofrerão mais com isto se não tiverem controlo parental. Não são desenvolvidas competências interpessoais, não há empatia nem entreajuda na sociedade.

A solidão de que falo, a emocional, é aquela em que nos sentimos totalmente sós e vazios por dentro. Podemos estar rodeados dos nossos amigos mais chegados e não conseguir uma ligação profunda com ninguém. Em retrospetiva, acho até que me tornei numa pessoa mais introvertida por isto. Todos gostamos de falar e ser ouvidos, mas ninguém pára para ouvir e mostrar interesse nos outros.

A solidão emocional é o tipo de solidão que não se procura, é uma insatisfação com o ambiente em que vivemos, é a anulação do que somos e sentimos. É aquela que aperta o peito e faz-nos duvidar se merecemos viver.

Idosos que foram deixados em lares e que a família não visita ou raramente telefona, crianças e adolescentes sem amigos que sejam alvo de bullying e não têm o apoio e aconselhamento apropriado, pessoas sem abrigo...

A solidão não escolhe idades, não escolhe épocas do ano nem classes sociais.

Podia estar a falar sobre o assunto durante dias porque infelizmente conheço este sentimento demasiado bem e enquanto escrevi este post a minha mente vagueou bastante e percebi que o problema é bem complexo.

Segundo o filósofo brasileiro Fabiano de Abreu, estas são algumas causas do problema.

Depressão, ansiedade e outras doenças de foro psicológico podem ser consequência da solidão. Ainda que se fale muito mais sobre este tipo de doenças, o estigma está muito presente porque quando falamos nelas não é fácil fazer compreender o sofrimento que trazem. Falamos em números, em medicamentos. Não sabemos abordar a questão, que perguntas fazer... Não sabemos (e muitos não querem nem sequer sabem) lidar com as próprias emoções, quanto mais inquietar-se com as dos outros. E é aqui que o ciclo vicioso se inicia. Isolamento. Solidão.

A solidão desregula a serotonina, a adrenalina e o cortisol. Pode causar tensão alta, diabetes, insónia, dependências, dores musculares e nas articulações, maior predisposição a desenvolvimento de cancro, e pode, em casos extremos, levar à morte por suicídio.

Maio é o mês dedicado à Saúde Mental e, por isso, peço que se conhecem alguém de quem não têm notícias e que acham ser pessoa de risco, entrem em contacto nem que seja com uma mensagem. Insistam.

04
Mai20

A Nave

Desconfortavelmente sentada entre as 2 pessoas que mudarão o meu futuro, espero enquanto todos os protocolos e testes são minuciosamente finalizados para a descolagem. O fato pressurizado e toda a parafernália obrigatória para uma viagem ao espaço começa a incomodar-me. Os nervos assomam-se e só me apetece desistir. Mas não quero deitar por terra todo o esforço e investimento do último ano. Com 11 mil milhões de pessoas com olhos postos em mim, não quero fazer mais merda na minha vida.

A verdade é que estou por minha conta, prestes a enfrentar o desconhecido. Bem podia estar a caminho do meu próprio velório que ninguém quereria saber. Sou um ratinho de laboratório, mais uma vida que será ceifada em nome da ciência.

Mas não estou a ser totalmente honesta, ou estarei? Deixa de te fazeres de vítima! Vais porque queres, porque te voluntariaste.

Estamos no ano de 2099. Depois de várias décadas de pesquisa, testes e desenvolvimentos com ajuda de tecnologia extraterrestre, o Homem está preparado para mais um giant leap.

Neste caso, eu. Uma mulher, 56 anos. Nada a perder.

A contagem decrescente começou.

IMG_20200428_000934.jpg

Não possuindo o material mais adequado nem a qualidade necessária, isto foi o que consegui para o Universo estrelado. Ainda assim foi engraçado fazer isto.

01
Mai20

A Não Correspondência

Não sei se alguma vez senti amor romântico. Nunca senti as borboletas na barriga nem os joelhos fracos nem o nó na garganta. Não por uma pessoa, pelo menos, num contexto de amor ou paixão ou desejo.

Sei, sim, o que é não ter coragem de sequer expressar o meu interesse em alguém. Por medo de me expor, de me ridicularizar, por medo da rejeição.

Não conheço a tragédia do amor não correspondido nem compreendo a dor que nos domina.

O que será pior?

Um sofrimento auto-infligido ou um causado por algo que não podemos controlar? Ter o coração aberto ao mais nobre sentimento ou tê-lo escravizado, refém dos meus fantasmas.

IMG_20200430_194821.jpg

Foram precisos muitos dias e muitas tentativas para conseguir desenhar um coração mais ou menos simétrico. Só ontem me debrucei sobre correntes e foi mais fácil do que imaginei.

29
Abr20

Sugestão

para quem gosta de aprender

Há muitos temas que me suscitam curiosidade mas acho demasiado complexos para me debruçar sobre eles (isso e falta de motivação). Procurar livros de introdução a esses temas são uma boa opção mas ficam em lista de espera, atrás de todos os outros que ainda há por ler (gosto de o fazer com tempo, sem pressas).

Através de uma rede social, tive conhecimento de alguns sites que disponibilizam mini cursos sobre as mais variadas áreas. É um mundo em si e eu sou uma criança com mil separadores abertos sem saber qual o melhor cursinho a fazer.

Para quem está em casa em layoff por tempo indeterminado (um bocadinho como eu), parece-me uma boa forma de passar o tempo. Muitos dos cursos (diria que a maioria) podem ser feitos a um ritmo próprio. Muitos também já terminaram e estão arquivados mas ainda abertos a inscrições com acesso ao material por algumas semanas. Há outros tantos com início em datas futuras, abertos a participação e discussões com outros alunos (de todo o mundo).

Refiro-me a cursos gratuitos, desenvolvidos por docentes de universidades de todo o mundo, com uma opção de pagar um certificado após conclusão com nota positiva.

edX, Coursera, FutureLearn são alguns exemplos.

Boas descobertas! 

27
Abr20

Inquietações

Tenho ouvisto muito sobre o aumento de ansiedades e ataques de pânico por causa deste tempo de quarentena.

A falta de ocupar o tempo (de forma produtiva ou não) aumenta a tendência natural à ruminação que advém destas circunstâncias. A ruminação mental é a espiralização de pensamentos. Em casos de depressão e ansiedade crónica, muitos destes pensamentos são negativos, de tom auto depreciativo e, tornam-se tão constantes e automáticos que os tornamos como verdades absolutas.

De alguém que tem aprendido a viver com isto desde sempre, só posso dar o melhor conselho que já me deram até hoje: ocupem o vosso tempo livre o mais possível, nem que seja vendo vídeos no Youtube. Nos meus momentos mais difíceis, é a única coisa que me apetece fazer apesar de chegar ao final do dia e pensar que não fiz nada de produtivo. Esta forma de pensar é, também ela, negativa. O conselho é da minha psicóloga e esta forma de lidar com o nosso dia a dia em quarentena é uma forma de prevenir a espiral de pensamentos que se assomam.

Claro que nem sempre é tão fácil. Bem sei disso, mas é uma estratégia que requer muita tentativa sem efeito imediato.

Só espero que não haja um aumento exponencial na prescrição de ansiolíticos e antidepressivos (que haverá). Felizmente a minha médica de família deixou de nos passar receitas para estes medicamentos e começou a focar-se em alternativas mais naturais.

Para quem não costuma ter ansiedade, suplementos ou chá de raíz de valeriana poderão ser uma boa solução. A valeriana cheira muito mal, é verdade, mas há muita gente que confirma os seus efeitos.

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