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INFP

Introvertida. Intuitiva. Sentimental. Perceptiva.

31
Mai20

O Meu Prédio

O meu prédio faz parte de um complexo urbanístico cuja construção se iniciou em meados dos anos 80. São 4 ruas - umas mais longas que outras - de prédios em fileira. Todos de um bege dourado, uns bem tratados e outros que escorrem bolor dos velhos telhados de amianto. Cada janela é decorada com ferros coloridos e um gradeado de madeira.

Quando digo que moro na linha de Cascais, a primeira reacção das pessoas é: "Que sorte!". Contudo, a linha de Cascais é longa e nem todas as áreas são chiques. Que é o caso do meu bairro.

Tenho sorte, sim, de morar aqui. Uma zona com espaços abertos e jardins, os meus pais conseguiram há 30 anos mudar-se para aqui. Um apartamento, mesmo no final da rua, sem muito trânsito e que apanha sol em qualquer altura do dia. Supermercados a 10 minutos a pé, praia já ali, A5 e marginal aqui ao lado.

Os prédios são pequenos e cada um tem apenas 8 apartamentos. No início dos anos 90 começaram a mudar-se as famílias. Muitas das pessoas que ainda vejo pela rua e que se amolengam pelos cafés do bairro estão cá desde então. O meu prédio não é exceção. Sempre conheci todos os meus vizinhos. A minha mãe dava limões à do rés-do-chão e esta dava-lhe ovos. Ainda se trocam sobremesas. Quando começava a chover, gritávamos à janela para que todas conseguissem apanhar a roupa antes que se molhasse. Os vizinhos do primeiro andar vinham cá passar o Natal quando estivessem sozinhos e o do terceiro, informático, arranjava-nos o computador se fosse preciso. As vizinhas dos prédios em frente juntavam-se nas tertúlias cá do prédio enquanto os maridos, quase todos alentejanos, falavam sobre as suas aldeias, sobre comida, sobre futebol e sobre os seus ofícios. Havia o bater de tachos e panelas na passagem de ano, e o tiro de caçadeira da praxe. Havia miúdos na rua a toda a hora, com skates nas rampas, na terra e no descampado.

Estive alguns anos fora de Portugal, naqueles em que o Passos nos dizia para ir mas depois voltar. Agora não conheço o meu vizinho do lado que nem me responde a uma simples saudação quando nos cruzamos nas escadas. No apartamento abaixo do meu mora a neta da dona, que entretanto faleceu, e que anda de olho na casa dos velhotes ao lado. Trabalha para uma imobiliária. Os meus vizinhos de cima - nem sei quantos são - não conhecem o conceito de civismo. Não conheço quase ninguém nos prédios à minha frente.

Como é possível haver prédios que nunca levaram uma pintura, nunca lhes trocaram o telhado nem os gradeamentos de madeira podre passíveis de cair na cabeça de passantes? Como é possível as pessoas não quererem saber do seu lar, do seu conforto?

Mas o nosso bairro é uma comunidade onde muita gente não tem estudos nem emprego fixo. O tempo é passado nos cafés, muitos apartamentos, alugados, alojam mais gente do que deveria e as contas são pagas de forma menos lícitas. As caras novas trazem uma nova vida ao bairro, vejo mais crianças na rua e nos jardins mas continuo a não ver o sentido de comunidade de antes.

28
Mai20

A Arte Subtil de Dizer que se F*da

Deixava-me furiosa ver toda a gente com este livro na mão. Com uma capa laranja quase fluorescente não passava despercebido.

Nunca gostei do conceito de auto-ajuda. Aliás, nunca gostei de livros de auto-ajuda. Muitas das pessoas que os compram e que precisam de alguma orientação na vida necessitam de um tipo de ajuda mais... profissional. E estes livros não só não melhoram as preocupações de quem os lê como poderão até criar uma dependência e acabam esquecidos numa prateleira a ganhar pó.

Sempre achei que este livro fosse mais um desses. Escrito por um qualquer puto que só porque viajou imenso e levou uma palmadas e sofreu algumas desilusões, achou-se iluminado o suficiente para escrever um livro de auto-ajuda. Nunca li nenhum mas sempre os imaginei a todos com discursos similares, com listas de afazeres e hábitos a criar para atingirmos os nossos objetivos, sejam eles quais forem e dependendo do tema do livro.

Vi uma colega de trabalho lê-lo na hora de almoço e perguntei-lhe se era bom. Ela diz que sim e diz-me que o devia ler. Considerei a opinião dela por saber que os seus gostos literários não recaem neste tipo. Acabei por levá-lo para casa e surpreendeu-me imenso pela positiva. É um livro de auto ajuda ao contrário. Sou uma leitora lenta, gosto de ler e reler as mesmas páginas para interiorizar bem a mensagem escrita mas este livro foi lido rápido por não ser meu. Não me senti à vontade tomá-lo como refém. Mas precisava de o ter lido e ainda bem que o fiz.

Já tinha ouvido falar de Mark Manson, o seu autor, exatamente quando este livro foi publicado em Portugal. Lembro-me de ter ido ao site dele e ter subscrito para receber coisas. Coisas que acabei por nunca ler, para ser honesta.

De alguns anos a esta parte tenho-me oposto imenso à Psicologia positiva tão em voga hoje em dia. Dispenso mensagens inspiracionais de entendimentos vagos, quase ocos e os caminhos batidos dos clichés. São bonitos, não distantes da perfeição quando escritos com a letra certa e a paisagem utópica de fundo. E nem vou tocar no assunto das palestras motivacionais nem da infinidade de workshops que existem para o desenvolvimento pessoal em qualquer área da vida.

Isto para dizer que a mensagem de Mark Manson é a minha mensagem. É a que eu escolho seguir e apregoar por este mundo. Esta necessidade frenética que temos nos tempos que correm de ser melhor em tudo, de fazer e querer mais e melhor, de nos compararmos incessantemente com amigos, vizinhos, familiares e até através das redes sociais com quem não conhecemos tem como resultado o exato oposto do que procuramos. Quanto mais queremos, menos satisfeitos nos sentimos.

Um dos exercícios mais conhecidos da Psicologia positiva são as afirmação positivas. Olharmo-nos ao espelho, nos olhos, e repetir uma mensagem positiva sobre nós próprios como, por exemplo, "és bonita". Se temos necessidade de o fazer diversas vezes significa que não o sentimos. Se não o sentimos, aumentamos os nossos níveis de ansiedade e frustração que resultam precisamente em sentimentos, emoções e pensamento negativos como "nunca vou conseguir gostar de mim".

Cada pessoa, cada corpo, cada mente e cada espírito tem os seus tempos, a sua velocidade de aprendizagem e de vivência e faz-nos mal, danificamos a nossa forma de ser, a nossa essência, querer violar esses tempos.

Não me oponho, de todo, à Psicologia positiva. Apenas acho que não se aplica a toda a gente nem em qualquer situação. Só não sou a favor de pessoas que publicam livros de auto-ajuda baseados nas suas experiências pessoais e que, muito provavelmente, dificilmente ajudarão os seus leitores. Este é um negócio que, tal como a cosmética, gera milhões à conta do nosso mal estar.

Como um dia li algures por esta blogosfera (e peço imensa desculpa porque não sei nem me lembro mesmo em que blog o li e não quero estar a roubar as palavras aos outros), prefiro ser negativa porque é a forma mais próxima da realidade.

23
Mai20

Na Linha

Se pudesse, agora, estaria sentada no banco de um qualquer comboio com destino incerto. Sabia-me bem sair daqui e fugir à responsabilidade. A minha alma implora por aventura. Preciso da liberdade. De me libertar da rotina que se impôs, livrar-me do desespero entranhado.

Se pudesse, agora, via a paisagem passar de trás para a frente, pela janela de um qualquer comboio com destino incerto. A paisagem seca, amarela e azul, vazia de gente, sem sentido. Quero perder noção do tempo, não saber quem sou nem olhar-me ao espelho.

Se pudesse, agora, seria invisível.

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22
Mai20

Música #1

Estive anos sem ouvir música.

Não queria sequer sentir o bem estar que as batidas me davam. Chegava a ter medo do conforto que podiam trazer.

Há um ou dois anos descobri este miúdo. Sóbrio e humilde, para mim, destacou-se pelo desvio à música contemporânea mais popular. Nasceu numa cidade costeira do norte de Inglaterra, daquelas castigadas com desemprego e pobreza, de onde a juventude foge e a que fica não tem futuro. As suas músicas estão marcadas pela sua experiência na cidade enquanto adolescente e há muitas referências à cidade em si, às suas ruas mais e menos conhecidas, a pubs, expressões locais... São poucas as letras românticas. Abundam as realistas sobre política e sociedade.

Fica, abaixo, a primeira que ouvi dele. A primeira de muitas.

20
Mai20

Zona de Conforto

Há 3 anos por esta altura tinha decidido voltar para Portugal. Tirar tempo para estudar e mais tarde voltar a sair para mais um novo recomeço. Embora estivesse decidida a dedicar-me a 100% aos estudos, acabei por encontrar emprego (de temporário a quase efetivo) e a minha vida encarrilou por alguns meses. A minha carteira de conhecimentos resume-se a uma mão cheia mas a minha vida social até estava minimamente ativa.

Há pouco mais de um ano, as coisas começaram a mudar e num mês dei por mim numa nova espiral negativa. Senti-me completamente abandonada, para trás, esquecida. Depois de um cocktail medicinal, decidi sair um bocadinho da minha zona de conforto.

Sempre fui uma pessoa física, nunca fugi a exercício (se o fiz foi mesmo por falta de motivação e não por não gostar) mas sempre me faltou companhia para fazer mais atividades além de caminhar. Inscrevi-me num mini curso de escalada. 4 dias a trepar paredes artificiais e rochosas e adorei. Apesar de ser um grupo pequeno tive pena de não conseguir treinar mais. Ao terceiro dia comecei a acusar cansaço e fiquei doente. Ao quarto dia não consegui fazer nada. Em pleno março, as mudanças de temperatura e estados de tempo ao longo do dia são cansativos e obrigam a tirar e a pôr camadas de roupa vezes sem conta. Apanhámos sol e calor e uma tempestade de vento e trovoada ao final da tarde.

Foi uma experiência refrescante que precisava na altura e felizmente soube aproveitar.

Gostei tanto que em novembro voltei à aventura. Desta feita um fim de semana prolongado na Andaluzia a fazer vias ferratas. Um género de escalada em rocha feita através de estruturas férreas, escadas, cabos, pontes e ... impõe respeito! Muito respeito. O tempo voltou a trair-nos e alguns planos foram cancelados. Conseguimos, ainda assim, terminar 4 ferratas e não dá mesmo para esconder o sentimento de triunfo no final do percurso. É impossível ignorar o esforço conjunto do grupo e a confiança que se desenvolve durante a escalada. Ali todos triunfamos com apoio mútuo. O grupo passou por alguns momentos de tensão mas tudo se resolveu.

Ao que parece, não me calo quando estou cheia de medo nervosa. 

 

16
Mai20

Primeiro Olhar

A conversa foi íntima, pouco casual e foi fácil.

Foi fácil olhá-lo nos olhos e abrir o coração. Falar de medos e desejos e quase segredos. Nunca, num primeiro contacto, me tinha sentido tão bem com alguém.

Dez minutos passaram a correr. Era todo o tempo que tínhamos mas foram proveitosos.

A química estava lá. No primeiro olhar, no primeiro toque e no primeiro beijo.

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